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31-01-2009
Às seis e quinze, todos os dias, incluindo feriados e dias santos, Giuseppe Castagno cruzava a avenida central, que desembocava nos fundos do sanatório Spielrein. Era o funcionário mais antigo daquele estabelecimento, junto ao seu companheiro Carlus, que chegava logo após Giuseppe, sempre confiante de que ele já estaria lá, realizando as tarefas diárias.
Carregando um pesado molho nas mãos, Giuseppe repetia o mesmo movimento todas as manhãs. Com os olhos comprimidos, escolhia a chave certa que iria abrir cada sala e cada quarto. Comprimindo os lábios, soltava um silencioso bom-dia aos primeiros que fossem passando à sua vista, sem espera de resposta. Andava cabisbaixo pelo corredor, mas sua presença era facilmente percebida pelo tilintar das chaves que moravam nos bolsos do seu jaleco. Até os pacientes, certos da chegada do funcionário, prostravam-se ao pé da porta assim que ouviam os primeiros sinais de liberdade.
As condições de trabalho eram bastante restritas ali. Como os pacientes passavam a maior parte do tempo livres, caminhando pelos corredores e pelo jardim, a maioria dos funcionários temia falar algo que pudesse suscitar uma revolta ou um caos generalizado. Para exterminar qualquer possibilidade, o diretor do Spielrein proibia conversas desnecessárias entre os funcionários durante o expediente. Com isso, Giuseppe mantivera-se praticamente anônimo durante anos, apenas trocando alguns comentários com Carlus, que o ajudava na assistência ao quarto 808.
Há anos, os dois estavam encarregados de cuidar da jovem Amina. Davam-na banho, penteavam seus cabelos, limpavam o quarto, trocavam as roupas de cama, serviam-na comida e, às vezes, até conversavam com ela.
Ainda muito moço, Giuseppe chegara da Itália, seu país de origem, carregando bagagem e dinheiro poucos. Ávido por um trabalho, não teve nenhuma objeção ao encontrar serviço num sanatório, acreditando que iria passar pouco tempo lá, apenas enquanto não encontrava um novo emprego. Nos primeiros meses, ainda sem se acostumar com a rotina do Spielrein, Giuseppe buscava diariamente nos jornais um novo trabalho onde ele pudesse desenvolver melhor as aptidões que guardava da genealogia paterna: era um marceneiro por excelência. Quando menor, gostava de fazer molduras para as telas velhas e mofadas que as senhoras traziam para o galpão do seu pai. Admirava-as incansavelmente, conseguindo encontrar a beleza que parecia inexistente naquelas pinturas antigas, borradas pelo tempo. As arestas eram minuciosamente afinadas através dos instrumentos que eram orquestrados pela mãos de Giuseppe. As fagulhas de madeira voavam pelo ar em torno do menino, que guarda ainda hoje as marcas das felpas que ficavam cravadas nas mãos e nos pés.
À medida que o tempo foi passando, os jornais começaram a ser esquecidos e a rotina no sanatório ganhara um novo tom com a gradativa recuperação de Amina e a amizade de Carlus.
No que dizia respeito a suas necessidades básicas, por serem ambos responsáveis pela saúde da paciente, Giuseppe e Carlus trabalhavam de forma conjunta. Enquanto a paciência de Giuseppe era desenvolvida em longos monólogos com a jovem, Carlus providenciava os ajustes materiais, se doando aqui e ali a algum assunto pessoal. Como visitante mais freqüente do quarto de Amina, Giuseppe era o primeiro a perceber qualquer melhora da garota, que variava entre um olhar mais expressivo até um balbúcio de palavra. A menina não recebia mais visitas, mas sabia-se que alguns parentes costumavam ligar no período de festas para ter notícias e, além disso, sua despesa era devidamente paga todos os meses. Nenhum destes motivos poderia impulsionar Carlus a ter uma relação mais afetuosa com Amina, mas eram suficientes para manter o carinho de Giuseppe durante todos os anos que a jovem permanecia internada.
Ainda que estivesse planejando sua aposentadoria há algum tempo, Giuseppe sabia ser impossível a concretização desse ideal naquele momento. Carlus, quando ouvia o amigo rumorejar sobre tal desejo, buscava tolher da forma mais abrupta possível aquele anseio descabido do seu velho companheiro, como se buscasse cortar de imediato todas as suas esperanças alimentadas pela vã espera de concretização. Giuseppe conhecia as razões do amigo, mas, ainda que conhecendo-as, não contestava-o e continuava trabalhando, não para fazer gosto a ele, mas visando unicamente Amina, e tudo que poderia englobar seu universo sombrio, vago e disperso.
Carlus havia chegado àquela instituição anos após Giuseppe, sendo este o grande encarregado de ensiná-lo tudo que deveria ser aprendido ali. Quando tudo era velho e desbotado para Giuseppe, chegou aquele jovem adventício, com a cabeça vazia de conhecimentos, assim como ele chegara um dia, disposto a abandonar o passado e viver aquela vida quase monacal, de plena devoção à Amina. No momento em que o jovem Carlus já estava apto a desenvolver qualquer função, Giuseppe, cativado pela alegria e humor próprios da mocidade, resolveu convidá-lo para ser seu
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